A arte a imitar a vida por engano

Residência Artística NUX

Há uns dias atrás assisti a uma apresentação de, digamos assim, um trabalho. Um trabalho final. Trabalho esse que resultou de uma semana de residência artística. Ora, a apresentação que eu vi pelos vistos de final tinha muito pouco: marcou o fim dessa residência mas ainda está longe (pelo menos para os intervenientes) de poder ser considerado como uma peça pronta a ser apresentada formalmente enquanto espetáculo.

A explicação teórica está explicada em vários locais (basta procurarem por Teatro do Frio, NUX, STRATA e chegam lá). E já agora deixo aqui o link para a gravação audio do espetáculo. Funciona muito bem como banda sonora.

Como é óbvio nesta gravação não dá para ver o elemento da dança (se quiserem ver uma fase inicial deste projecto faze-lo aqui, mas não é bem a mesma coisa). Em relação ao trabalho de dança ou de som não sou capaz (nem quero) criticar ou comentar, mas tão só o que notei ao longo da apresentação, que em geral, mas de forma muito particular neste caso, o quanto a arte realmente imita a vida. Não foi essa a intenção inicial dos intérpretes, mas o resultado, para mim, foi precisamente este.

Se viram o vídeo, já devem ter uma ideia, se não, passo a explicar. Nesta peça temos uma dançarina e dois “criadores” de som, de vários tipos e feitios, criados por vários tipos de materiais. Uma dança, os outros fazem barulhos. Em resumo… Mas…

Metáfora #1

Entre os três há por vezes uma relação, outras nem por isso. Por vezes um dos sons de um intérprete parte do som do outro, outras vezes é completamente autónomo. Por vezes a coreografia altera o som, outras parece estar completamente desfasado do mesmo.
Cada um dos intérpretes pareceu-me representar um ser humano a fazer as suas coisinhas, a levar a sua vida; por vezes de forma independente, por vezes obrigado por um terceiro, outras só porque foi levado na onda. Toda a peça pareceu nada mais do que uma súmula, um condensado (algo abstracto, é certo) da forma como a humanidade vive. Lindo!

Metáfora #2

Com base no que disse acima, mas com uma variante. A certa altura os dois “músicos” levantam alto e teatralmente uma tampa (ou testo, como também se diz) de uma panela que por lá andava – não literalmente, bem entendido: a panela simplesmente estava lá e era por vezes transportada por alguém, não tinha vida própria. À frente desta tampa / testo foi levantado um megafone. Terceiro passo: um diapasão é usado para vigorosamente bater na tampa. Resultado: nada! Nenhum som, nada de nada.
Só mais tarde o megafone, que tinha sido usado não para ampliar o som produzido pelo diapasão e pela tampa mas para o gravar, foi utilizado, sendo o som registado transformado de várias formas e feitios.

Mais uma vez, como na vida: por vezes as nossas acções, por muito esforço e vontade que coloquemos na sua execução, parecem não ter nenhuma consequência, mas a verdade é que mais cedo ou mais tarde, há algo que pode sair dali, embora não necessariamente aquilo que inicialmente pretendíamos.

Metáfora #3

O momento final da peça consiste na rapariga a dançar enquanto o som (que nesse momento vem de uma coluna) é colocada na panela por sua vez fechada com a tampa. Os dois “músicos” transportam essa panela e o som amordaçado para o exterior. A dança continua por alguns momentos, mas poucos segundos depois deixarmos de ouvir o que quer que seja.
De certeza que alguém conseguiria fazer uma metáfora fantástica com essa acção, eventualmente relacionada com a censura, ou algo igualmente profundo, mas eu só me lembrei do que quando a música acaba, também se acabou a festa.
A partir do momento em que deixamos de interagir, de gostar, odiar, falar, comunicar, a partir do momento em que os outros deixam de interagir connosco, e quando as nossas acções deixam de ter repercussão nos outros e já não temos nenhum que nos influencie a nós, está tudo acabado; é sinal que finalmente caiu a cortina preta da noite (sem paralelismo nenhum com o teatro, note-se).

Mas e então, vale a pena ir ver?

Ainda não consegui perceber se o que vi era ou não bom, mas gostei, e gostei especialmente do que acabei por pensar, gostei do facto de o que eu vi não ter sido aquilo que supostamente devia ter visto, e gostei do facto de todas as pessoas que assistiram à apresentação terem visto algo diferente.
Por isso sim, vale a pena ir ver, mesmo que a peça em si eventualmente não. Dá para perceber?

“De perto ninguém é normal”, de Eduardo Verde Pinho

A mais recentes exposição de Eduardo Verde Pinho segue a linha formal dos trabalhos anteriores: colagens (quer de materiais impressos quer de objectos) e sobreposições de tintas numa amálgama muito própria cujo resultado oscila, mesmo dentro de cada trabalho, entre o abstracto lírico e o narrativo.
Sempre se notou perfeitamente a cultura visual e, talvez ainda mais importante, a social, do autor. Sem compromissos com ideologias nem convenções, mas não chegando ao neo-dadaísmo militante de outros autores portuenses, os trabalhos de Eduardo não conseguem ser fracturantes mas, felizmente, também não conseguem ser decorativos.
Essa liricidade agreste ganhou novo alento com alguns dos trabalhos presentes nesta ultima exposição, os dos retratos. Não que o autor tenha mudado de visão, mas pegando na técnica utilizada conseguiu criar algo que realmente surpreende.
Estes trabalhos têm como base visual, e imagino que de trabalho, certas fotografias (retratos) que se dividem em dois grupos: o das personalidades famosas (em que a foto, independentemente do valor artístico inerente, poderia viver apenas da personalidade) e aquelas que, apesar do retratado, é a imagem em si que tem importância, e aqui destaque-se os retratos a p/b.
O que foi conseguido pelo autor pode-se definir como magistral: cobrindo, riscando, “destruíndo” a imagem, conseguiu o feito de a fazer brilhar ao da mais – e aqui voltamos à dicotomia abstracto-narrativo, se é que o podemos fazer – ao manter intacta, apesar da destruição, a mensagem da fotografia inicial, e continuar a narrativa no resto da tela.
Em tempos discutiu-se se a obra (que seria ao mesmo tempo performance) artística que consistisse na destruição e adaptação de trabalhos existentes dos autores clássicos consagrados, cujo exemplo mais premente, até pela apropriação popular desse mesmo acto em formatos, digamos assim, menos destrutivos, seria a Mona Lisa, não deveria ser aceite socialmente e principalmente pelas instituições que a história e o comercio tornou guardiãs dessas mesmas obras. Claro que nessa discussão o objectivo era o causar impacto e trazer protagonismo ao artista/vândalo, mas ultrapassando essa noção da destruição, temos nestes trabalhos a prova de que o resultado final da concretização da adaptação física de um trabalho existente é igualmente valido enquanto produção artística. Claro que isto foi possível devido à utilização da imagem reproduzida, o que nos traz outras questões, e o facto de as termos não será alheio à formação fotográfica do autor, embora esta não seja tudo, apenas um elemento na mundovidência peculiar e muito interessante que, podemos dizê-lo, tivemos o deleite de apreciar.

Eduardo Ver Pinho, “De perto ninguém é normal”, na galeria Ap’arte, Rua Miguel Bombarda, 221 de 28 de Abril a 2 de Junho.