Casinha: supostamente boutique café

Consegui finalmente ir ao Casinha – Boutique Café na Avenida da Boavista! Já lá tinha passado várias vezes mas por variadas razões nunca consegui entrar naquilo que me pareceu ser um local fantástico e uma melhoria na oferta generalizada de cafés naquela zona da cidade.

Vendo de fora (literalmente) imaginei um ambiente limpo, branco, com o que pareciam ser produtos bem selecionados, uma pequena loja gourmet no interior com vinhos, compotas e outros produtos do género gourmet, que até podiam ser os mesmos que se vendem em supermercados mas com uma exposição tão bem cuidada que ganham logo outro encanto.

De uma das vezes até tive um vislumbre da esplanada, que me fez logo lembrar a do Labirintho no tempo em que o Labirintho tinha esplanada na verdadeira acepção da palavra.

E gostei logo do quadro negro no exterior, com frases que mudavam ao longo do dia: de manhã anunciam o brunch, à noite o jantar.

E depois da minha visita pude confirmar que esta construção mental se revelou perfeitamente enquadrada na realidade: o local é fantástico, extremamente bem decorado, com pormenores que revelam uma grande atenção ao detalhe e muito bom gosto. O espaço é limpo, respira-se bem e o ambiente é engraçado.

O problema é que tinha esperança que este local viesse a ser uma alternativa ao Arcádia, que como se sabe, embora num espírito diferente, também tem um decoração cuidado, produtos próprios e um ambiente engraçado, mas sofre do grande mal de ter um péssimo atendimento. Pelo profundo e total desinteresse que os donos ou gerentes demonstram pelo clientes, os próprios empregados vão (e foram) ganhando essa atitude e ir ao Arcádia equivale a ir pedir o favor de sermos servidos com o mínimo de atenção.

Ora este novo concorrente é pior! Espantoso mas verdade. O atendimento (no que espero venha a ser a primeira e última vez que lá ponho os pés) foi simplesmente vergonhoso.

Para começar o tempo infinito que demoram a servir simples cafés. Não há atendimento à mesa: os pedidos são feitos ao balcão e levados pelo próprio cliente. Uma opção, pronto, mas uma opção que supostamente teria como resultado um serviço mais célere. Nem assim… Filas para pedir um café e umas fatias de bolos já cortados! Nem quero imaginar como é que será ao almoço pedir o menu!

Depois gostei (isto é sarcástico) de ao pedir um café ter como resposta a pergunta “Um expresso?” acompanhado do olhar que dizia: “Aqui somos pessoas finas, não somos labregos ignorantes como tu, logo dizemos expresso em vez de café”. Eu sei que na lista está escrito expresso, mas não me parece que um estabelecimento possa ter a pretensão de mudar toda uma cultura de várias gerações, tão ligada à forma de socializar de uma cidade e de um país, que definiu que o termo café representa determinado produto alimentar, servido de determinada forma em determinado recipiente. Ou se calhar até têm mesma essa pretensão…

Mas tudo bem: aqui os empregados têm a mania. Nada de novo. Mas enfim, eu queria “isso” para mim e para este um cappuccino. Ok. Pagamos, recebemos o troco. Recebemos a factura. E o café e o cappuccino? A senhora que veio depois de nós pediu e pagou a meia-de-leite e a fatia de bolo e saiu. Então e nós?

Reparamos nos empregados. Uma (a que nos atendeu) tanto está ao balcão como não está. E o que é que ela tem tanto para fazer lá fora? Não há serviço de mesa…

A colega tanto está a mexer na máquina do café (e não é tirar cafés: nós não recebemos o nosso e já não há clientes há espera) como está a passar travessas de bolos sujas por água e a pousá-las em cima de uma toalha que está em cima da máquina de café. Uma toalha daquelas de cozinha que todos temos em casa e que usamos para limpar os pratos ou as mãos enquanto cozinhamos.

E depois temos um rapazito que até é simpático, mas mais uma vez ora está a mexer na máquina do café, ora está a operar uma geringonça que de alguma forma está ligada a leite mas nada que tenha como resultado prático servir o cliente.

A miúda das “limpezas” pergunta se já estamos atendidos. “Já pedimos, estamos à espera de um café e de um cappuccino.” Como já estávamos atendidos volta para as limpezas… Alguém que nos atende que ela ali tem coisas importantes para fazer!

Nisto chega a rapariga que nos atendeu que diz: “Para aqui é um café e um cappuccino.” Mas recebê-los, nada. Passado algum tempo lá chega o meu café. Boa. E o cappuccino? Afinal temos de esperar mais um bocadinho… Tivéssemos pedidos dois cafés! Ou dois expressos: aí se calhar já estávamos despachados.

Miserável, vergonhoso. O espaço lá fora até era engraçado, mas eu sinceramente gostava de ter um café com bom aspecto, engraçado, com um serviço que correspondesse minimamente à imagem do local. Já nem sequer digo um atendimento fantástico, mas pelo menos profissional.

E retomando o que disse atrás, ao menos na Arcádia o atendimento é lento e demorado mas não é, nem de longe nem de perto, esta miséria que senti na Casinha.

Pelos vistos se quisermos atendimento personalizado e pessoal tenho de ir aos tascos, de que dou como exemplo o Sr. Manuel, logo ali ao lado: aquilo é o estereótipo de como um cliente pode ser atendido de forma a sentir-se em casa, com vontade de voltar, mesmo que o espaço em si não seja bom nem inovador nem sequer atraente. Já se quisermos ir a um sítio todo pipi e chique temos de me nos contentar com um atendimento mau.

Será que o preço a pagar por um café giro e engraçado é sempre um serviço foleiro e vice-versa? O conceito de boutique para mim envolve também o atendimento, mas aqui esse “pormenorzinho” ficou completamente de fora do projecto inicial…

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Boa sorte Portugal! Nós vamos ali ver se chove e já voltamos…

Já se sabia que o nível de emprego em Portugal estava em declínio. A taxa de desemprego tem vindo a subir constantemente ao longo dos últimos meses, e esta taxa só de desemprego oficial só considera os desempregados que estão activamente à procura de emprego: não engloba os que desistiram de o fazer, os recibos verdes que como só trabalham quando o rei faz anos não são considerados desempregados – e com a necessidade quer pública quer estatal de reduzir custos, o rei mesmo fazendo anos não celebra a data, logo é como se não o fizesse.

A situação está tão complicada que são as próprias agências de recrutamento a desistir. E embora não sendo exactamente um agência, o fecho da actividade do site infojobs em Portugal é sintomático de como a situação está.

A explicação para esta “difícil decisão, segundo o director geral da InfoJobs, Jaume Gurt, foi

a situação económica do país, que não permitiu à InfoJobs cumprir os objectivos traçados dentro dos prazos previstos

E sendo uma empresa não estão cá para perder dinheiro, estão para o ganhar, e se não ganharem hoje ganham-no amanhã:

Esperamos também que o estado económico do país progrida positivamente nos próximos anos, até porque a nossa crença no potencial humano de Portugal permanece inalterada.

Os países têm altos e baixos, períodos de crescimento e de recessão, e no entanto o planeta continua a girar e os anos a passar. Se estivermos mal agora, daqui a uns anos voltamos a melhorar.

Achei engraçado por um lado o terem enviado a mensagem, mas essencialmente gostei foi da despedida:

Gostaríamos, porém, de agradecer a confiança depositada em nós e desejar a melhor das sortes.

Fez-me pensar: será que o que precisamos é de sorte? E em que é que consistiria essa sorte? Com uma classe política e para-política que desde a implementação da monarquia constitucional gere Portugal de uma forma demasiado preocupada com os interesses próprios, de que é exemplo actual a total incapacidade ou desinteresse em implementarmos um sistema de prevenção de corrupção eficaz que várias entidades independentes individuais e colectivas, nacionais e estrangeiras têm vindo a afirmar ser uma absoluta necessidade para o desenvolvimento do país, um sistema judicial triste e moribundo, será que a nossa sorte seria um cataclismo que nos obrigasse a refazer um Portugal do zero?

Ou será que a nossa sorte seria ganharmos outro Euromilhões europeu? Agora que os “fundos comunitários” não servem para estourar dinheiro em “obras públicas” e “cursos de formação” que se traduziram em coisas tão essenciais para o desenvolvimento humano de um país como a mais elevada concentração de Ferraris por metro quadrado do mundo, pode ser que o BCE passe a comprar dívida pública a taxas reduzidas. Com esse dinheiro barato podíamos voltar a sustentar muitos pançudos. Com sorte ainda aumentamos os prazos de pagamento lá para o fim do mundo e voltamos a pensar que nunca mais teremos de pagar dinheiro nenhum.

Pode ser que tenhamos sorte…

Google

A Apple com dificuldades nos países emergentes ou como a minha televisão é maior que a tua

A noticia até se pode considerar interessante: um dos principais produtores de tablets (e o que na prática “lançou” este tipo de equipamento) não conseguiu os resultados mediáticos a que está habituado quando lançou o mais recente iPad no mercado chinês. O artigo do Finantial Times publicado no Google+ tem como imagem principal um gráfico que ilustra bem o tema do artigo. Aqui vê-se bem como outros produtos, nomeadamente o(s) concorrente(s) mais directo(s), aqueles equipados com o OS Android estão com outro ritmo de implementação no mercado chinês. Por muito significativo que seja este dado apresentado é um dado, entre outros que se podem utilizar.

O engraçado do post no Google+são os comentários. Para começar a quantidade. Que é monstruosa. E depois a qualidade! Tirando meia dúzia de casos (em proporção…) que até deram comentários interessantes e significativos, a esmagadora maioria dividia-se em dois grandes grupos: os que atacavam a Apple predizendo o seu fim a breve trecho enaltecendo o(s) Android OS e os que desvalorizando a noticia mantinham que apesar de tudo a Apple continuava a ser o grande inovador que lançou o mercado dos smartphones e dos tablets e que iria ser para todo o sempre a grande empresa inovadora e revolucionária.

E enquanto alguns até conseguiam dar argumentos interessantes, ao contrario dos sumários (e que se via em muita quantidade) Android rules ou Android forever, sempre com o oposto Apple rules, Apple forever, vê-se bem o fundamentalismo por trás da maior parte dos comentários.

Se trocássemos as palavras Apple e Android por dois clubes desportivos o resultado iria ser basicamente o mesmo. O ponto de partido que mais se viu por ali foi: o meu lado é o melhor, ponto final parágrafo. Em seguida usam-se os argumentos para provar a conclusão definida previamente.

Mas, tal como nos clubes de futebol, a verdade é que não interessa! Algumas pessoas gostam da FIAT, outras da Citroën. Os que podem preferem a Mercedes e os amigos a BMW. Algumas pessoas preferem ir para a praia outros escalar montanha.

Eu gosto do mundo assim. E a Apple e a Google também. Seja a falar mal ou bem a verdade é que falam muito destas marcas. É sinal que ambas conseguiram o que queriam: uma base de clientes dedicados e envolvidos que defendem a sua camisola independentemente de tudo à sua volta.Mas não será que há coisas mais interessantes neste mundo com as quais nos exaltarmos do que o aparelhómetro que temos no bolso?

Apple struggles in emerging markets

Apple struggles in emerging markets

A Brasileira

Reconheço que quando o café A Brasileira foi comprado pelo Caffé di Roma fiquei de inicio um pouco desgostoso com o resultado. Se por um lado é preferível termos um espaço transformado e descaracterizado ao invés de um que mantém toda a tradição e aspecto mas fechado, a cair aos bocados, por outro julguei que havia qualquer coisa travestida, falsa, no novo espaço. A juntar a tudo isto a perfeita incompetência, arrogância e total falta de profissionalismo dos funcionários não ajudou.

Mas agora dou por mim a frequentar mais vezes o espaço quando quero ir a um café simplesmente para tomar café ou então parar uns minutos tenho tendência para lá parar. Por um lado é limpo e não cheira mal, e essa é uma característica que infelizmente ainda não está suficientemente espalhada pelos estabelecimentos da cidade. Depois, e talvez mais importante, fora da hora de ponta é espaçoso, calmo, agradável e luminoso.
As mesas e cadeiras ainda são muito século XIX, como as do teatro S. João por exemplo: minúsculas, sem espaço para as pessoas, e as mesas servem para colocar três ou quatro peças e mais nada. Horríveis para servirem de centro a um grupo de pessoas, mas para parar uns minutos para um café é perfeito.
Mais: para ler um jornal ou trabalhar no computador, para quem vai de computador para um café, chega a ser estranhamente ergonómico. Com o espaço à justa somos obrigados a organizar todos os nossos objectos e a ter uma posição anatomicamente correcta. Não dá para muito tempo, mas para despachar serviço é perfeito. Aliás, é num ambiente destes que imagino o Fernando Pessoa a escrever, embora num sítio com menos luz e mais fumo de tabaco do que aqui.

O bónus são os empregados, ou mais correctamente, as empregadas, que estão em maioria: simpáticas, sorridentes, muito profissionais.

O actual Caffè di Roma não tem grande carisma, apesar da decoração trabalhada, pode não ser um local de culto, mas não só cumpre os objectivos como os excede de forma discreta e insidiosa. Como tudo isto partiu de um certo ódio, julgo que daqui ainda vais nascer uma grande paixão.

Call Centers… Uma surpresa.

Nos últimos tempos tive, por razões variadas, de contactar várias linhas de apoio ao cliente de várias instituições públicas e privadas e/ou enviar e-mails com pedidos vários a essas mesmas instituições.

Eu sei que a maior parte dos funcionários dos call centers são mal pagos, têm um trabalho muito exigente e certamente pouco satisfatório em termos pessoais, mas a culpa não é de quem os tem de contactar.

Comecemos pela linha de apoio da Via Verde: uma desgraça. Ponto. Toda e qualquer resposta tinha de ser sacada a saca-rolhas. E esta geralmente era não dá, não podemos ou não é connosco. Literalmente: vá chatear outro.

O mais inútil: pela segunda vez no espaço de um ano (parece que já me tinha esquecido da minha experiência anterior) contactei a empresa de alojamento Amen (do grupo Dada) por telefone e por e-mail. A linha telefónica deles serve para ganharem dinheiro. É um número de valor acrescentado (707), custa na rede fixa 10ct + IVA por minuto e serve para nos dizerem em que sítio do site deles existe uma página relacionada com a minha dúvida. Quando lhes pergunto o que não está lá esquivam-se. O departamento comercial, por e-mail, idem aspas aspas. Eu pensava que a ideia do Departamento Comercial era comercializar, i.e., vender, mas pelos vistos neste caso está lá para encher chouriços.

Estes dois foram os piores entre outros que de atendimento ao cliente não têm nada: o Banco BPI é mais um caso de um triste exemplo de quem tem uma linha telefónica para fazer de conta que se importa com quem lhes dá dinheiro mas que na verdade se está a borrifar com coisas como a boa imagem da empresa, uma célere e eficaz resolução de problemas ou ainda coisas tão estapafúrdias como elucidar o cliente de uma forma simpática, rápida e definitiva as pequenas dúvidas que podemos ter ao utilizar os serviços.

E agora a surpresa: a linha de apoio ao cliente das Finanças (que agora se chama Autoridade Tributária e Aduaneira). O melhor atendimento que já (ou)vi. Das três vezes que os tive de contactar, foram simpáticos, eficazes, esclarecedores, tentaram ajudar no que eu pedi, chamaram-me a atenção para o que eu não tinha pedido mas que para a minha situação seria importante, aconselharam-me a tomar determinadas acções, etc, etc, etc. Das três vezes e com três pessoas diferentes.

É verdade que eu tenho má imagem dos funcionários públicos em geral, e não morro de amores pelos que estão atrás dos balcões das finanças em particular, mas fiquei maravilhado com a forma como fui tratado.

Isto é uma raciocínio sem qualquer fundamento concreto, mas dei comigo a pensar que se as empresas que querem o meu dinheiro tivessem o mesmo apoio ao cliente (e por apoio eu quero dizer ajuda ao cliente, não estou a falar do nome que se dá a uma linha mas que de apoio tem muito pouco) que tem a instituição do estado a quem eu sou obrigado a dar dinheiro quer queira quer não, talvez hoje estivéssemos, enquanto país, um bocadinho melhor do que estamos. Porque da mesma forma que sabemos quem são os nossos amigos quando precisamos deles, também vemos quais são as empresa que têm um bom serviço ou um bom produto quando estes começam a dar problemas. E se as linhas de atendimento ao cliente forem um espelho da atitude que as empresas da qual eu sou cliente têm para com os consumidores, então estas empresas realmente estão-se a borrifar para se eu estou contente com o serviço/produto, querem é que chegue com o dinheiro à frente e os chateie pouco.

Meus senhores, já pensaram em deixar de tratar os funcionários dos vossos call-centers como carne para canhão e em deixar de os explorar como cidadãos de segunda? Se calhar podia ser uma forma de começar a ter clientes mais satisfeitos com a vossa empresa e que vos iriam recomendar em vez de estar a falar da péssima experiência que tiveram convosco.

Depois dos suicídios nas fábricas, na China já começaram a aumentar os salários.

Uma notícia fantástica da BBC (podem vê-la aqui. A China começa a mudar como mudaram todos os outros países desenvolvidos (por desenvolvidos entenda-se o termo normalmente usado para separar os Estados Unidos, a Europa e mais uns quantos dos restantes, não pensemos num adjectivo que qualifique o que quer que seja): começaram a aumentar salários…

A província de Sichuan vai aumentar o salário mínimo nada mais nada menos do que 23%. É muito, mas não é caso isolado. O governo recomendou um aumento de 13%, que é o valor que as restantes províncias adoptaram em média. A China começou a evoluir, caminhando para deixar de ser um país de custos laborais baixos – ou como dizem os especialistas referidos pela BBC, “perdendo a sua mais-valia em termos de centro produtivo”, ou traduzindo, deixando de explorar os trabalhadores. A população vai começar a exigir mais direitos sociais, a sociedade vai evoluir, os bens de consumo vão aumentar em valor e em quantidades vendidas e mais dia menos dia vão estar a passar pelo que estão agora a passar os países “desenvolvidos”, com crescimento quase nulos, dificuldade em aguentar os apoios sociais, e isto numa sociedade que provavelmente, fruto da sua evolução, já não vai poder contar estruturas de retaguarda como a família, nomeadamente a rural.

Quem vai ganhar são os países adjacentes: Vietname, Bangladesh e Camboja. Que irão entrar neste mesmo ciclo daqui a uns anos (que poderão ser décadas). Fala-se muito de crise financeira, mas hoje em dia estamos a viver um momento histórico em que o mundo vai mudar, e os países desenvolvidos (onde apesar de tudo temos de incluir Portugal) vão ser arrastados nesta deslocação de placas tectónicas sociais.

Se não tivéssemos de viver este momento ia ser muito giro analisarmos a forma como isto tudo se vai desenrolar. Mas provavelmente vamos ter de esperar pelos nossos netos (isto para quem ainda nem sequer tem filhos) para podermos olhar para trás e maravilharmo-nos da forma como o mundo mudou de um momento para o outro.

O massacre norueguês e o conceito de Europa

Quando se soube do que se tinha passado no acampamento de Verão de Utoeya no final de Julho de 2011 contactei um familiar que tenho na Noruega para saber se estava tudo bem.

Mais por descargo de consciência que por real medo: já sabia que os locais não eram os mesmos. E tinha razão:

Aqui em Heidal está tudo bem. Vivemos numa vila muito tranquila e manifestações ou manifestos de loucura como os que aconteceram em Oslo aqui não fazem muito sentido. Não há politicos, nem grandes concentrações de pessoas ou jovens, só alguns turistas…

Depois leio o que se veio a saber ser a opinião generalizada da sociedade norueguesa:

Toda a gente, especialmente os pacificos noruegueses estão abismados. Ainda mais por ser um deles a fazer tal acto.

Mas o mais engraçado veio a seguir:

Mas se queres saber a verdade, na minha opinião, ainda bem que foi um deles, norueguês e bem loiro (para não haver duvidas) e não um pobre muçulmano porque os restantes muçulmanos residentes, mas inocentes é que iam sofrer graves consequencias…Assim como é um norueguês é considerado louco mas mais ninguém sofre com reações de xenofobia ou racismo.

A Noruega é um país tão tranquilo e equilibrado que nem parece realidade o que aconteceu…

E por esta Europa fora é de esperar que estas situações se venham a repetir. O projecto europeu tem-se vindo a repetir ao longo dos séculos, com avanços e recuos (alguns dos quais muito graves, como os totalitarismos do século XX), mas atingimos um patamar de desenvolvimento muito superior ao da maioria dos países do mundo. E como aconteceu a todos os grandes impérios chegamos à fase crucial que antecede a queda.

Todos estes grandes impérios cresceram à medida que… cresceram. Enquanto tiveram de se expandir, enquanto não interiorizaram em todos os aspectos a noção de superioridade relativamente aos outros povos num nível tal que impedisse a integração puderam crescer e ser assimilados, como aconteceu nos Estados Unidos, fundado em imigrantes, foragidos e desterrados, no Império Romano, na China, nos vários potentados (de curta duração é certo) do Crescente Fértil, as sociedades viram-se obrigadas a interagir com a diferença, a assimilar culturas diferentes, a mudar a sua própria forma de estar na vida. Só quando deixou de haver diferenças, quando o exterior, o outro, era demasiado pequeno e insignificante é que a sociedade e a mentalidade se começou a estereosclorosar.

É sintomático desta atitude a propaganda que surgiu há alguns anos e que ainda hoje se mantêm, do mito fundador da União Europeia (porque mito fundador da Europa) enquanto bloco descendente da Cristianismo e da Cultura Greco-Romana. Se bem que não seja mentira, também não diz tudo: o Cristianismo e a cultura Greco-Romana cresceram e desenvolveram-se enquanto não eram Ocidentais mas Ocidentais e Orientais numa primeira fase e posteriormente enquanto o Ocidente era a antítese (ou assim considerado por nós) do Oriente. O Império Romano não era Europeu, era do Mediterrâneo: o Egipto era muito mais importante do que a Inglaterra, a França dos nossos dias não era nada comparada com a actual Turquia. E falando de Turquia até muito recentemente esta foi um tema fundamental na construção da Europa enquanto parte de um diálogo que criou política e militarmente as também culturalmente com a Europa. E o muçulmano (não só turco) foi durante muito tempo e em mais do que um momento uma parte integrante da construção da ideia de Europa, não só pela sua presença física mas igualmente pela presença cultural enquanto o outro, o oposto a nós, com o qual se mantinha uma relação eventualmente não física mas ainda assim omnipresente.

Já para não falarmos de outros momentos de crescimento, a todos os níveis, da Europa: o da expansão comercial, primeiro no Mediterrâneo, depois entre outros países europeus e finalmente em todo o mundo conhecido – que se tornava cada vez maior – que mais uma vez trouxe para Europa elementos desconhecidos ou pouco conhecidos, como o(s) africano(s), o(s) sul-americano(s), o(s) asiático(s).

E mais uma vez a Europa cresceu, evoluiu, criou e desenvolveu uma sociedade que ainda hoje acreditamos ser mais evoluída, mais justa e correcta que a maior parte das existentes. Tudo com base neste contacto com a diferença, com o desconhecido, que nos fez a nós mudar, tentar compreender, descobrir, questionar o outro e por consequência a nós mesmos.

Até chegarmos ao ponto máximo em que estamos hoje. Atingimos um nível de bem-estar social e material que não sendo perfeito nos parece melhor do que aquilo que vemos por lá fora. E tentamos proteger-nos de um eventual retrocesso. Fechando as nossas fronteiras, quer físicas quer culturais. Dizendo que não a tudo o que é diferente e que não se encaixa perfeitamente nas nossas concepções. E este é o princípio do fim. Um organismo que não evoluiu acaba por deixar de se adaptar e acaba por se extinguir. Sobreviverão aqueles que se forem adaptando às mudanças.

Não aceito tudo o que os outros (muçulmanos, indianos, africanos, etc) fazem, dizem ou pensam. E se na Arábia Saudita há regras específicas para o comportamento das mulheres que nós em visita temos de respeitar, também cá temos de impôr os nossos limites morais e éticas baseados na justiça, igualdade e fraternidade intransigentemente. Temos de dizer que não aceitamos a segregação da mulher e a excisão feminina, que não aceitamos a vendetta familiar e outras formas culturais que vão profundamente contra a nossa forma de cultura. Mas isso não é o mesmo que dizer que não aceitamos nada que não seja igual a nós, que não estamos abertos ao diálogo e à análise e que não sabemos ver a diferença entre o que são os nossos direitos fundamentais e base da nossa civilização e aquilo que não passa de hábitos e tradições e formas de socialização.

Estamos neste momento numa fase crucial: ou nos tornamos, outra vez, um império cultural e social ao qual nos orgulhamos de pertencer, ou vamos desaparecer à medida que o resto do mundo, e especialmente os povos em fermentação cultural, política e social começam eles a fermentar e a evoluir.