A nossa forma de vida? Quando lá chegar espero que sim.

Ontem vi um filme, que poderia ser documentário, mas nem eu nem o próprio autor temos bem a certeza do que é. Eu não sei porque ele não o disse e não vou ser eu que vou afirmar o que quer seja, mas percebi que é documentário porque retrata a vida de pessoas reais e é filme porque o trabalho de edição pelos vistos foi extenso. Ora bem, a isto chama-se ética profissional e é coisa bonita de se ver.

E bonito de se ver também foi o “A nossa forma de vida”. Resumidamente é uma hora e meia de momentos da vida de um casal de reformados no seu apartamento no Porto. Dito assim parece simples, mas o resultado é francamente espectacular e bastante mais complexo do que poderia parecer à primeira vista.

Para além da qualidade da imagem – muito bem trabalhada e a mostrar uma beleza surpreendente – da qualidade do som – ao contrário do habitual em filmes portugueses, perfeitamente audível, mesmo nas cenas em que as vozes se misturavam com ruído da televisão, dos aviões e dos electrodomésticos a funcionar – o que realmente me impressionou foi aquele casal tão específico e tão particular ser tão exemplar de mil e uma pessoas que conhecemos.

Podem ser os avós do Pedro Marques que vemos e ouvimos, mas quem sentimos são todos os avós que temos e conhecemos nos pequenos pormenores do dia-a-dia, da sua vivência.

E isto é também algo que impressiona no filme, e se calhar é por isso que também é documentário: o que vemos não são cenas representadas com um raciocínio, um princípio meio e fim, é uma avalanche de vida, de relações entre pessoas, do peso da experiência e das vivências, são pequenas coisas que revelam outras, explicam as restantes e se contradizem a elas próprias.

Como quando o Armando está deitado na cama e leva uma rabecada da Maria porque lhe está a massajar as costas com o pé e se desculpa dizendo que lhe está a tirar um cabelo… E insistindo, ouve a pergunta: “Mas ao menos lavaste os pés?”. E lá continuam, um “tirando o cabelo”, a outra tentando descolar-se, e nós a vermos tantas anos de carinho, de compreensão mútua, de como a certa altura duas pessoas podem realmente ser apenas uma. E tudo isto enquanto vão comentando a cerimónia de apresentação dos Jogos Olímpicos de Pequim.

Outra característica do trabalho é o humor. Não um humor produzido e trabalhado, mas o humor que existe no dia-a-dia, mesmo de pessoas a atingir o final da vida, já notando nos ossos e nas costas o peso da idade, mas que mesmo assim ainda sabem sorrir. E mais, ou se calhar essencialmente, o humor que nós sentimos a rirmo-nos da maneira de ser deles, de dois idosos que já não acompanham o mundo com os seus “coitados”, os drogados, os políticos-gatunos, os assaltos (sim, é da idade: a certa altura todos nós vamos ler a secção de “Segurança” do JN), a crise e a programação dos cinemas ininteligível, mas que continuam a ser parte integrante dele, e acima de tudo já não querem nem precisam de acompanhar o mundo: já não se importam que se riam deles porque estão acima dessas ninharias e trivialidades. Já se aceitaram a eles e um ao outro e, apesar de tudo, ao mundo. Mesmo queixando-se das mazelas físicas e do dinheiro que se evapora numa listinha de coisas a comprar e a pagar vivem numa tranquilidade já muito zen de aceitação da vida como ela é, já tendo passado por muito e feito muito.

E por já terem “visto mundo” e feito e dito muito é que o continuam a fazer. Mesmo que o Armando, para pena da Maria, já não saia muito de casa ainda se entretém a arranjar compulsivamente electrodomésticos e escrever poemas, e ela não consegue deixar passar em branco o patinho (“essencial em qualquer casa”) sujo.

Este documentário sobre a vida do Armando e da Maria revelou-se ser, mais do que um filme/documentário sobre os avós do Pedro Marques, um manifesto de agradecimento à existência de todos os “avós”.

THE WAY WE ARE (trailer 3′) from Pedro Filipe Marques on Vimeo.

 

E já agora que estamos no assunto:

Com o envelhecimento da população ocidental em geral e portuguesa em particular muito se tem discutido sobre a forma como um número crescente de idosos vai ser integrado na sociedade, mas a verdade é que nessas situações normalmente apresentam-se os velhinhos tristes e pobrezinhos sem nada para fazer senão esperar a morte. E ao mesmo tempo também se fala muito da forma como a sociedade mais nova não trata os seus antepassados vivos como eles mereciam. Talvez se passássemos a representar os idosos menos como os pobres coitados como o fazemos normalmente e mais como estes dois estarolas castiços se calhar não ia ser tão problemático o envelhecimento da população…

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