“De perto ninguém é normal”, de Eduardo Verde Pinho

A mais recentes exposição de Eduardo Verde Pinho segue a linha formal dos trabalhos anteriores: colagens (quer de materiais impressos quer de objectos) e sobreposições de tintas numa amálgama muito própria cujo resultado oscila, mesmo dentro de cada trabalho, entre o abstracto lírico e o narrativo.
Sempre se notou perfeitamente a cultura visual e, talvez ainda mais importante, a social, do autor. Sem compromissos com ideologias nem convenções, mas não chegando ao neo-dadaísmo militante de outros autores portuenses, os trabalhos de Eduardo não conseguem ser fracturantes mas, felizmente, também não conseguem ser decorativos.
Essa liricidade agreste ganhou novo alento com alguns dos trabalhos presentes nesta ultima exposição, os dos retratos. Não que o autor tenha mudado de visão, mas pegando na técnica utilizada conseguiu criar algo que realmente surpreende.
Estes trabalhos têm como base visual, e imagino que de trabalho, certas fotografias (retratos) que se dividem em dois grupos: o das personalidades famosas (em que a foto, independentemente do valor artístico inerente, poderia viver apenas da personalidade) e aquelas que, apesar do retratado, é a imagem em si que tem importância, e aqui destaque-se os retratos a p/b.
O que foi conseguido pelo autor pode-se definir como magistral: cobrindo, riscando, “destruíndo” a imagem, conseguiu o feito de a fazer brilhar ao da mais – e aqui voltamos à dicotomia abstracto-narrativo, se é que o podemos fazer – ao manter intacta, apesar da destruição, a mensagem da fotografia inicial, e continuar a narrativa no resto da tela.
Em tempos discutiu-se se a obra (que seria ao mesmo tempo performance) artística que consistisse na destruição e adaptação de trabalhos existentes dos autores clássicos consagrados, cujo exemplo mais premente, até pela apropriação popular desse mesmo acto em formatos, digamos assim, menos destrutivos, seria a Mona Lisa, não deveria ser aceite socialmente e principalmente pelas instituições que a história e o comercio tornou guardiãs dessas mesmas obras. Claro que nessa discussão o objectivo era o causar impacto e trazer protagonismo ao artista/vândalo, mas ultrapassando essa noção da destruição, temos nestes trabalhos a prova de que o resultado final da concretização da adaptação física de um trabalho existente é igualmente valido enquanto produção artística. Claro que isto foi possível devido à utilização da imagem reproduzida, o que nos traz outras questões, e o facto de as termos não será alheio à formação fotográfica do autor, embora esta não seja tudo, apenas um elemento na mundovidência peculiar e muito interessante que, podemos dizê-lo, tivemos o deleite de apreciar.

Eduardo Ver Pinho, “De perto ninguém é normal”, na galeria Ap’arte, Rua Miguel Bombarda, 221 de 28 de Abril a 2 de Junho.

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