O massacre norueguês e o conceito de Europa

Quando se soube do que se tinha passado no acampamento de Verão de Utoeya no final de Julho de 2011 contactei um familiar que tenho na Noruega para saber se estava tudo bem.

Mais por descargo de consciência que por real medo: já sabia que os locais não eram os mesmos. E tinha razão:

Aqui em Heidal está tudo bem. Vivemos numa vila muito tranquila e manifestações ou manifestos de loucura como os que aconteceram em Oslo aqui não fazem muito sentido. Não há politicos, nem grandes concentrações de pessoas ou jovens, só alguns turistas…

Depois leio o que se veio a saber ser a opinião generalizada da sociedade norueguesa:

Toda a gente, especialmente os pacificos noruegueses estão abismados. Ainda mais por ser um deles a fazer tal acto.

Mas o mais engraçado veio a seguir:

Mas se queres saber a verdade, na minha opinião, ainda bem que foi um deles, norueguês e bem loiro (para não haver duvidas) e não um pobre muçulmano porque os restantes muçulmanos residentes, mas inocentes é que iam sofrer graves consequencias…Assim como é um norueguês é considerado louco mas mais ninguém sofre com reações de xenofobia ou racismo.

A Noruega é um país tão tranquilo e equilibrado que nem parece realidade o que aconteceu…

E por esta Europa fora é de esperar que estas situações se venham a repetir. O projecto europeu tem-se vindo a repetir ao longo dos séculos, com avanços e recuos (alguns dos quais muito graves, como os totalitarismos do século XX), mas atingimos um patamar de desenvolvimento muito superior ao da maioria dos países do mundo. E como aconteceu a todos os grandes impérios chegamos à fase crucial que antecede a queda.

Todos estes grandes impérios cresceram à medida que… cresceram. Enquanto tiveram de se expandir, enquanto não interiorizaram em todos os aspectos a noção de superioridade relativamente aos outros povos num nível tal que impedisse a integração puderam crescer e ser assimilados, como aconteceu nos Estados Unidos, fundado em imigrantes, foragidos e desterrados, no Império Romano, na China, nos vários potentados (de curta duração é certo) do Crescente Fértil, as sociedades viram-se obrigadas a interagir com a diferença, a assimilar culturas diferentes, a mudar a sua própria forma de estar na vida. Só quando deixou de haver diferenças, quando o exterior, o outro, era demasiado pequeno e insignificante é que a sociedade e a mentalidade se começou a estereosclorosar.

É sintomático desta atitude a propaganda que surgiu há alguns anos e que ainda hoje se mantêm, do mito fundador da União Europeia (porque mito fundador da Europa) enquanto bloco descendente da Cristianismo e da Cultura Greco-Romana. Se bem que não seja mentira, também não diz tudo: o Cristianismo e a cultura Greco-Romana cresceram e desenvolveram-se enquanto não eram Ocidentais mas Ocidentais e Orientais numa primeira fase e posteriormente enquanto o Ocidente era a antítese (ou assim considerado por nós) do Oriente. O Império Romano não era Europeu, era do Mediterrâneo: o Egipto era muito mais importante do que a Inglaterra, a França dos nossos dias não era nada comparada com a actual Turquia. E falando de Turquia até muito recentemente esta foi um tema fundamental na construção da Europa enquanto parte de um diálogo que criou política e militarmente as também culturalmente com a Europa. E o muçulmano (não só turco) foi durante muito tempo e em mais do que um momento uma parte integrante da construção da ideia de Europa, não só pela sua presença física mas igualmente pela presença cultural enquanto o outro, o oposto a nós, com o qual se mantinha uma relação eventualmente não física mas ainda assim omnipresente.

Já para não falarmos de outros momentos de crescimento, a todos os níveis, da Europa: o da expansão comercial, primeiro no Mediterrâneo, depois entre outros países europeus e finalmente em todo o mundo conhecido – que se tornava cada vez maior – que mais uma vez trouxe para Europa elementos desconhecidos ou pouco conhecidos, como o(s) africano(s), o(s) sul-americano(s), o(s) asiático(s).

E mais uma vez a Europa cresceu, evoluiu, criou e desenvolveu uma sociedade que ainda hoje acreditamos ser mais evoluída, mais justa e correcta que a maior parte das existentes. Tudo com base neste contacto com a diferença, com o desconhecido, que nos fez a nós mudar, tentar compreender, descobrir, questionar o outro e por consequência a nós mesmos.

Até chegarmos ao ponto máximo em que estamos hoje. Atingimos um nível de bem-estar social e material que não sendo perfeito nos parece melhor do que aquilo que vemos por lá fora. E tentamos proteger-nos de um eventual retrocesso. Fechando as nossas fronteiras, quer físicas quer culturais. Dizendo que não a tudo o que é diferente e que não se encaixa perfeitamente nas nossas concepções. E este é o princípio do fim. Um organismo que não evoluiu acaba por deixar de se adaptar e acaba por se extinguir. Sobreviverão aqueles que se forem adaptando às mudanças.

Não aceito tudo o que os outros (muçulmanos, indianos, africanos, etc) fazem, dizem ou pensam. E se na Arábia Saudita há regras específicas para o comportamento das mulheres que nós em visita temos de respeitar, também cá temos de impôr os nossos limites morais e éticas baseados na justiça, igualdade e fraternidade intransigentemente. Temos de dizer que não aceitamos a segregação da mulher e a excisão feminina, que não aceitamos a vendetta familiar e outras formas culturais que vão profundamente contra a nossa forma de cultura. Mas isso não é o mesmo que dizer que não aceitamos nada que não seja igual a nós, que não estamos abertos ao diálogo e à análise e que não sabemos ver a diferença entre o que são os nossos direitos fundamentais e base da nossa civilização e aquilo que não passa de hábitos e tradições e formas de socialização.

Estamos neste momento numa fase crucial: ou nos tornamos, outra vez, um império cultural e social ao qual nos orgulhamos de pertencer, ou vamos desaparecer à medida que o resto do mundo, e especialmente os povos em fermentação cultural, política e social começam eles a fermentar e a evoluir.

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